alimentos da alma

 

 

 

“ É uma questão de sobrevivência alimentarmos o corpo... mas também o é, alimentarmos a Alma! ”

 

 

Lembro-me de entrar pelo lusco-fusco na Galeria Bar S. Francisco, em Coimbra. Nas paredes, as fotografias do José Manuel Coutinho captavam a luminosidade do espaço difundindo um contraste tal, entre a imagem e os contornos, que me extasiaram na sua observação, obrigando-me contemplativamente a interiorizar os “produtos” da câmara escura. Saboreei os prazeres duma produção fotográfica, que mais não era, do que o estudo do estado d’Alma captado pela visão do Artista e preservado no registo dos instantes por onde o Artista acontecera e que, instantaneamente os ‘escrevera’ na objectiva da sua máquina com o pequeno movimento de dedo impulsionando o clique mágico!

 

O fascínio daquele momento, permanece até hoje, porque as fotografias de José Manuel Coutinho fruem de um lado espiritual, pontuando o Artista, movimentos de vida impressionantes, onde podemos entrar no preciso momento da captação da imagem e então, fluir livremente... porquanto os nossos sentidos conseguem tecer os ruídos das passadas na calçada ou os movimentos da água a cair, a rugosidade duma qualquer parede ou o cheiro da maresia, ou até o aprazimento dum beijo...

 

“ Quod Erat Demonstradum “ a exposição da Galeria Almedina, avivou esta ideia da relação-Artista-objectiva, que mais não é do que o uso simbólico do pincel e da paleta transformados em câmara escura onde, José Manuel Coutinho capta as essências momentâneas de espaços conceptuais ou não, de um outro espaço exterior visível aos olhos de todos mas reflectindo a sua personalidade interior, rica na procura de poemas visuais que confortam o espírito, valorizando assim, pormenores que a muitos passam despercebidos.

 

Captando esses momentos, fugazes instantes de luz e contra-luz o Artista, José Manuel Coutinho vive-os em plenitude, transformando essas pequenas vírgulas que nos separam da realidade em pequenos sonhos cromáticos. Para lá do horizonte, muito para além da imagem estampada no papel, subentendida no naipe colorido ou no preto e branco, desenhada nos contornos ou até enfeitiçada pela luz... as imagens de José Manuel Coutinho são muito mais do que imagens... são a vivência de um eterno quotidiano, entre ele, a máquina fotográfica e a sinopse que apresenta, fruto da relação Artista-Natureza, porque ambos estão do mesmo lado e não há como separá-los!

 

Esta dualidade Artista-Natureza, cria expressões e formas na fotografia de José Manuel Coutinho que deslaçá-los, desprendê-los, haveria de por força ser tormentoso...

 

Palmira Marques, 04 de Janeiro de 2008