filosografias - a duração íntima das imagens
Filosografias
A duração íntima das imagens.
Curiosamente, depois de uma consulta mais aturada ao ver as obras de J. M. F.
Coutinho, volto a minha primeira impressão... (e aviso que acredito em Platão),
a palavra é uma aproximação maior à essência (que parece impulsioná-lo) do que
as imagens, porque as imagens são sempre substituição dessa essência (que não se
pode fixar, apenas se pode apontar ou dela dar pistas). "A imagem é o poema
visual" então é natural que a palavra contenha em si essa facilidade de
dizer verdades complexas de forma simples...
...A multiplicidade de interpretações que nasce da imagem deriva da consciência
íntima de quem a contempla e lhe dá nova vida na duração íntima, no tempo puro.
Mas esse tempo inteiro não está na imagem, a imagem é essa imobilidade que é
vida no que já não é, isto é, nessa imobilidade dá-se a mudança, porque nela
aconteceu o movimento e os objectos que ela fixou são o indício desse movimento.
Por isso a imagem pode afastar-nos daquilo que quis trazer à fala, as palavras
não. Ainda que as palavras, tradutoras das ambiguidades humanas, se encontrem
alojadas nas imagens, nas sonoridades, na luz, essa presença pode ser mais ou
menos directa. As imagens (de entre as que vi) em que encontro essas densidades
de uma forma mais nítida, essas palavras pintadas com luz, são as que contêm em
si maior dramatismo... aquelas em que um indício assumido parece anunciar a
tragédia, pelo confronto entre o ser e a fragilidade da vida.
(Outras imagens, onde a palavra se substitui pela sensação visual pura, despertam sentidos da vida, o império dos pormenores que passa despercebido ao comum das pessoas, imersas na realidade quotidiana).
Vejo nas suas imagens palavras (que com certeza são palavras por serem elas que
melhor trazem ao mundo as ideias que fazem nascer as imagens... a filosofia, que
mais não é do que uma incessante sede de sentido)...
...mas isto tudo pode não ser verdade, porque falar de imagens é falar daquilo
que elas são para nós, daquilo que elas activam em cada consciência íntima...
então tudo o que escrevo possivelmente não tem importância senão para mim,
porque o sentido define-se em cada ser, não é universal.
Cristina Fernandes, 3 de Julho de 2008.